domingo, 29 de dezembro de 2013

DIÁRIO DE UMA MEMÓRIA PERDIDA - OUTRA RESPOSTA


Cara anónima,

Obrigada pela sua mensagem de paz que muito se enquadra na época natalícia em que nos encontramos. Parece-me no entanto que se enganou no destinatário: a pessoa que descreve não sou eu.

Ao contrário do que afirma, eu não carrego nenhum ódio nem por vós nem por ninguém. Não é, nunca foi e nunca será um sentimento com o qual me identifique, por isso nunca o senti nem sei o que isso é. Agora mágoas e revoltas, sim! Mesmo assim, sou capaz de perdoar, abraçar o inimigo se de alguma forma sentir que há arrependimento. Ainda há pouco tempo dei por mim a contactar alguns descendentes vossos, a pedir perdão nem sei bem pelo quê. Talvez por uma ausência de mais de uma década, por desavenças dos progenitores que eu não queria que afectasse o que sinto por eles. Tive coragem suficiente para lhes dizer que os amava apesar das intrigas dos mais velhos.  

Não sei se pela idade que tem (mais velha que o meu pai), terá já alguma amnésia em relação às minhas presenças nos eventos familiares, eu não sou essa pessoa que apenas apareceu duas vezes. Mas estou disposta a ajudá-la relembrando-lhe que dos 13 anos até aos meus 30, estive inúmeras vezes em quase tudo o que era reunião familiar: fui ao casamento da sua irmã mais nova, da sua sobrinha da 2ª irmã mais velha, de vários almoços na casa da seu irmão mais novo, de solteira e depois de casada, de vários jantares e almoços na casa da sua irmã mais nova, de vários almoços na casa da sua sua irmã do meio quando ela ainda era proprietária do restaurante, de várias Páscoas na casa do seu pai, de vários almoços na casa do seu pai, de imensos jantares na casa do seu irmão do meio, de várias tardes passadas na casa da sua 2ª irmã mais velha, na praia no restaurante do Branco e por fim, na sua própria casa!!!!! Naquela época não havia telemóveis mas tiravam-se fotografias. Eu ainda as tenho. 

Estamos todos muito agradecidos pela festa surpresa que fizeram naquele ano ao meu pai. De facto, deve ter sido dos momentos mais felizes da vida dele. Mas caso não se lembre (você tem grave problema de memória), a dita festa veio com factura agarrada que depois de entregue ao meu pai, ele recusou-se a pagar. E a  fotografia emoldurada na sala dele... fui eu que a tirei e mandei enquadrar. Capturei o sorriso mais lindo e feliz de um homem que admiro e achei que deveria perpetuá-lo para sempre. 

Estive ausente sim, dos funerais dos meus avós: a ele por razões que já expliquei, a ela, com pena minha, por razões de força maior. Se eu tivesse aparecido na despedida do seu pai, acredite que ele até dava voltas na urna. Acredite que seu desejo era mesmo esse: que não fosse. Seu pai demonstrou todo o ódio que sentia por nós numa carta. Por isso, por respeito aos seus sentimentos, não fomos. 

Afirma que as críticas que sofri foram fruto da minha imaginação. Então pegando nessa teoria, terá sido fruto da imaginação de quem mas contou: do seu pai; de sua cunhada; de seu irmão do meio; da minha filha; de alguns descendentes vossos, genros e por fim o ex.. E os factos, que facilmente se podem comprovar ,foram estes: o meu tão badalado e inesquecível divórcio onde TODOS se sentiram no direito de opinar, julgar, criticar e condenar, tendo a sua 2ª irmã mais nova ter dito que "...era má mãe porque uma boa mãe nunca se divorcia quando tem filhos..."; seu irmão mais novo, depois de um episódio´aos 16 anos, queria proibir a filha de se relacionar comigo; mais tarde e já divorciada, sua cunhada, depois de saber que seus filhos passavam muito tempo em minha casa, alertou-os para ter cuidado comigo, manifestando assim seu desagrado por fazer parte das amizades deles;  um episódio em que sua cunhada critica a forma como eu estava a pagar a minha casa; outro que em que afirmavam que tinha provocado a falência técnica da empresa do meu pai... mas há mais, muito muito mais.  

Cara anónima, já reparou que começa por dizer que não se lembram de mim , que nunca me criticaram mas mostra estar a par das últimas novidades da minha vida e pede para suprir a curiosidade de alguns? Sobre isso e todos os momentos por mim vividos falarei sim, num livro que penso vir a publicar. Uma ideia de uma grande amiga que um dia me disse "...tua vida dava um bom livro". A minha vida é de facto um exemplo de coragem, determinação, luta e amor que pode ajudar outras pessoas a sobreviver aos mesmos dramas. Dizem que Deus dá as maiores lutas aos seus melhores soldados... 

Diz que, e passo a citar:"...vê-se que não sabes nada de concreto da família, nem idades, nem profissões, nem conhecimento real das pessoas..." . O que sei ouvi-o do seu pai, irmãos, cunhadas, genros, descendentes e o ex. É para considerá-los mentirosos? Que assim seja, mas aproveite então a mesma borracha para apagar o que alguns destes também disseram a meu respeito...  Quanto ás idades, é verdade sim que passo o tempo todo a enganar-me e troco o irmão mais novo pelo do meio.  Que tem isso de relevante? Altera alguma forma os factos relatados? 

Pede também para que fale da minha vida, mas querida amiga, anda distraída? O meu blogue é autobiográfico. Não falo noutra coisa. Se quis dizer para não falar de vós, tenho pena, mas passaram a fazer parte da minha vida assim que se intrometeram nela. E prometo que falarei toda a verdade, mas tem a certeza que é isso que quer? Como andou muito distraída talvez ainda não tenha percebido que eu sou uma caixa de Pandora. Tem a certeza que quer abri-la? Guardo comigo segredos preciosos de todos vós, outros vividos por mim, como por exemplo o assédio sexual que sofri de 2 homens da família. Quer mesmo que conte esta história e as outras? Percebeu agora porque além de si e a outra irmã, ninguém se atreve a me incomodar?   

Pedia-lhe agora encarecidamente que quando lesse algo meu fizesse um esforço para não deturpar o que digo. Não critiquei ninguém que trabalhava na construção nem nas limpezas. Foi dito que à época, quando meu pai lhes estendeu a mão eram essas as suas condições de vida. Por isso escrevi:.".. fazia limpezas num albergue de prostitutas, um trabalho humilde mas digno!!" Saiba que admiro muito pessoas como ela (eu também sou assim) que quando têm que arregaçar as mangas, desde que sejam trabalhos dignos, agarram o que for preciso! Por isso, não afirme o que não escrevi. Sobre o facto de serem trabalhadoras... permita que corrija: ela SIM; ele NÃO! Sua cunhada é uma força da natureza, extremamente trabalhadora, que se levantava todas as madrugadas o para carregar camiões, horas e horas a fio. Seu irmão é mais adepto dos fatos e gravatas. Vive à sombra dela.  Sobre a seriedade de ambos, vamos deixar isso dentro da tal caixinha... Essa PARTE mexe com os descendentes e quero preservá-los.

E agora um pouco sobre minha biografia: Saiba querida amiga que aos 16 anos ganhei os meus primeiros 50 contos a trabalhar na fábrica do meu pai, nas férias de verão, com um empilhador, a carregar camiões, comer pó e levar a chuva nas bentas!  Depois, aos 17, decidi trabalhar lá a tempo inteiro e estudar de noite. Sempre no duro. Além de trabalhar com máquinas, montei muitas paletes de blocos à mão quando era preciso. Ingressei mais tarde no ensino superior e formei-me sem que meus pais me pagassem uma única despesa. Com 23 anos e já a dar aulas, comprei sozinha o meu primeiro carro, um renault super cinco em segunda mão. Já com curso acabado, assumi a pedido do meu pai a administração da empresa dele. Adquiri uma casa com empréstimo bancário. Paguei-o durante anos. Meu pai, ao querer vender a empresa, disse-me que me pagaria o restante da casa porque eu iria ficar sem emprego e queria aliviar as minhas despesas. Mesmo assim, ao fecho da fábrica, tinha poupanças no valor de 25 000€. Há por aí algum descendente vosso com igual currículo? Sei que se inspirou neles para falar daquela maneira. Mas da próxima vez que ousar falar de mim, documente-se primeiro!  Quanto a não saber o que é viver numa casa pequena... ó meu Deus... essa foi SEMPRE a minha realidade enquanto vivi no Canada. Eram tão pequenas que em 2 delas eu dormia na sala.   

Sobre o meu avô, você não comenta mas comento eu: não retiro uma única palavra ao que disse. Nada do que disse é falso. E sua mãe, a quem vou dedicar um post, confidenciou muita coisa tendo sido ao fim e ao cabo a maior vítima dele.

Não diga que falo sozinha. Escrever é e sempre será um acto solitário que podemos partilhar com outros ou não. Mas basta que haja 1 como vós que o leia para já ser acompanhado... A propósito, informo que por cada post que publico sou lida em média por 100 pessoas por dia... Diga lá outra vez que estou a falar sozinha só para eu me rir... 

E por fim, aqueles 45 membros de uma família maravilhosa de que eu fui excluída são os mesmos que, depois de festas com foguetes, a metade que fica fala mal da outra que parte por causa do esquecimento de alguns em pagar as despesas? Não obrigada. O tempo passou mas desde que me afastei, tanto quanto sei, nada mudou. Amam-se todos muito mas apenas quando se olham pela frente.

Os meus votos para vós são que 2014 vos traga a lucidez necessária para perceberem a futilidade dos vossos argumentos, a mesquinhez dos vossos actos. Que vos abra o coração para os reais valores da vida e transforme as vossas intrigas em amor e dedicação por aquele que sofreu muito até ao fim pelas desavenças parvas dos irmãos e que ajudou alguns a serem o que são hoje: meu pai.

Desejo-lhe a si muita luz na sua vida para sair das trevas por onde caminha, onde a escuridão é tanta que não vê nada do que se passa à sua volta.








        

   


sábado, 28 de dezembro de 2013

DIÁRIO DE UMA MEMÓRIA PERDIDA - NOVA CARTA ANÓNIMA

Quando criei o meu blogue autobiográfico e depois, dentro deste, o diário dedicado ao meu pai, estava longe de adivinhar o efeito meteórico que ele poderia vir a causar junto de  pessoas que julgava extintas. Isto porque há mais de uma década que não os sentia sequer  respirar...

Se por um lado o reaparecimento através de cartas anónimas me contaminou os nervos, por outro estou radiante: o que conto conseguiu mexer com as suas consciências. Porém, o problema dá-se quando ao lerem, não sabem interpretar o que lêem. Por outro lado sinto que por muito que explique o óbvio, continuarão a procurar nas minhas palavras razões para arremessar pedras  julgando que se trata de um duelo. 

A carta que acabo de receber, também ela anónima e desta vez dirigida a mim não ficará sem resposta e ponto por ponto, item a item, comentarei todas as incongruências. Entretanto adiantei serviço e destaquei o que INEVITAVELMENTE irá ser fortemente contestado, mas com factos concretos. Não basta escrever. É preciso comprovar o que se diz no espaço e tempo. 

Eis o documento:

"Mensagem de Paz"
"Só duas palavras para te tranquilizar em relação ao pensares que fostes criticada pela família do teu pai. Tu apesar de teres laços familiares pelo sangue, nunca mas mesmo nunca, estiveste presente em nenhuma ocasião que a família se reunia. As duas vezes que te vimos foi na festa surpresa que fizemos ao teu pai e outra ao teu tio, festas essas que nenhum deles tinha tido nem nunca voltarão a ter e da qual teu pai guardou uma foto que enquadrou e pendurou em casa(vestido de Napoleão), cadeau da irmã. Tivemos ocasião de o convidar mais vezes para aniversários das irmãs, e era para nós uma alegria ver a felicidade do teu pai, como ria com as brincadeiras improvisadas que temos o hábito de  fazer. Festejamos aniversários de tudo, casamentos, nascimentos, reformas, ou bodas de prata ou ouro, batizados ou simplesmente um jantar de família para nos reunir-mos esquecendo os problemas da vida e rir de tudo e de nada. Nestas festas as pessoas que nunca estavam eras tu e a família do teu tio, o que aconteceu mesmo no funeral da mãe e do pai do teu pai. Mas até mesmo nessas ocasiões nós só podemos sentir a falta de alguém que de uma maneira ou de outra esteve presente nas nossas vidas, caso contrário é como se não existisse e fica completamente esquecida. As críticas que julgas que te fizeram estão na tua imaginação. Não temos tempo para comentários negativos. Quanto à maneira como falas da família do teu pai, vê-se que não sabes nada de concreto da família, nem idades nem profissões nem conhecimento real das pessoas. Eu sempre ouvi dizer, quando alguém fala mal de alguém à para desviar a atenção de si próprio. Se não é o teu caso mas sim porque precisas de falar sozinha, olha, fala da tua vida pessoal. Conta por exemplo, o que tantos curiosos gostariam de ouvir da tua boca, mas a verdade, claro!! Caso contrário, varre esse ódio que tens dentro de ti. Vive a tua vida como quiseres ou o melhor que puderes. Sê feliz!! Quanto à família do teu pai que tanto te incomoda, esquece-a por completo porque deles tu não sabes nada. Eu vivi ao lado deles. Foram pessoas honestas, trabalhadoras que trabalharam na construção como teu pai, as mulheres nas limpezas como tua mãe, tudo profissões honestas e honradas e assim ganharam dinheiro para dar a vida aos filhos que fez com que alguns nunca soubessem o que é sacrificar-se para terem uma casa própria etc. etc. e isso em nada os valoriza. Nunca fizeram limpezas mas também nunca economizaram um tostão, nunca viveram numa casa pequena, mas também nunca conseguiram ter nada sem a ajuda dos pais.  Quanto ao que dizes do teu avô, é sem comentários. Imaginava-te mais inteligente. È pena! Porque esse ódio não te deixa lugar para seres feliz e impede-te de te integrares numa grande família que ainda há pouco tempo contava 45 membros, avós, filhos, netos e bisnetos, várias vezes juntos. Alegria dos avós que viveram até aos 95 anos. Amigos que nos frequentam sabem e podem confirmar, somos 5 irmãos amigos que continuamos a honrar os pais exemplares que Deus nos deu e a quem amamos e respeitamos eternamente. Para ti boa sorte. Vê se consegues reconciliar-te contigo mesma. Sê feliz! Santo Natal."   

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

DIÁRIO DE UMA MEMÓRIA PERDIDA - A RESPOSTA

Cara irmã do meu pai,

A sua carta anónima chegou bem. Porém, como deve compreender foi impossível dá-la a ler ao meu pai. Penso que mais por ignorância que por maldade, esqueceu-se que a doença dele era uma demência. Não faz mal. Eu compreendo. São muitos anos de ausência... 

O meu pai ao contrário do que fala, está numa profunda paz com ele e com o Mundo. Por uma razão apenas: cumpriu exemplarmente a sua missão na vida. Foi bom pai, bom marido, bom irmão e bom amigo de todos sem excepção. Estendeu a mão aos  que lha pediram sem esperar nada em troca. Pelo mal que a sua carta lhe faria, fico aliviada por ele não a poder ler.

Talvez por distracção, escreveu que, e passo a citar, "há erros que se pagam caros". Pois cara irmã do meu pai, saiba que doença não é castigo. As doenças existem para nós como existem para os restantes animais e pergunto: porque razão adoece um cão? É porque fez algo que não devia? Consegue perceber a idiotice que acaba de dizer? Aprenda que, pelo contrário, o karma existe e a vida é um boomerang. Tudo o que damos de bom, recebemos de volta em dobro. Tudo o que damos de mau, volta para nós da mesma forma. Se não souber do que falo, pergunte à sua cunhada, que depois de andar toda a vida a afiar a língua para prejudicar os outros, tem um karma que não a deixa dormir descansada para o resto da vida. O único erro grande do seu irmão foi querer ser amigo de todos os irmãos... Retenha isso na sua frágil memória.

Permita-me ainda, já que meu pai não pode fazê-lo, corrigir-lhe mais um lapso desta vez, penso que de memória: meu pai  NUNCA se afastou de ninguém, afastaram-se dele! Ainda as intrigas eram uma miragem, e vocês todos, sem excepção, vinham e voltavam de França sem o visitar! Normalmente sabia-se da chegada deste  ou daquele por acidente. A casa do meu pai NUNCA encheu com a vossa presença e era necessário receber um convite  na casa dos que já se encontravam definitivamente em Portugal para usufruir da vossa companhia ou por-vos os olhos em cima! Depois, veio o ultimato: "ou deixas de falar com o irmão do meio ou nós afastámo-nos!" Precisamente porque meu pai entendeu que não deveria excluir NENHUM irmão do seu convívio, zangaram-se com ele!  As partilhas vieram pôr a cereja no topo do bolo: mesmo depois de os terem deixado escolher, roubar à descarada metros ao que tinha herdado, ele tinha ainda que ser complacente e deixar que fizessem no que já era dele tudo o que lhes apetecesse! Seja sensata e admita: vocês abusavam da boa vontade dele! Por ele ter sido generoso toda a vida, achavam que lhes devia isso sempre.

Eu sei que tiveram a mesma educação mas o que cada um fez com o que recebeu, foi muito diferente. Logo agradeço que nem se compare, sequer de longe, ao sábio do seu irmão que soube receber os ensinamentos e transformá-los em bondade e carisma. O seu irmão transbordava de carácter. O sangue que lhe corre nas veias pode ser igual mas os códigos genéticos não. Meu pai parece um  "bastardo". Ele é e sempre foi diferente de todos vós.  

Mas o que me intriga mais na sua carta é dizer que não pode cá vir porque sua visita não seria por nós apreciada. Mas por acaso precisa da minha simpatia por si para dar um abraço ao meu pai? Sim é verdade. Não gosto de nenhum de vocês! Mas era suposto eu gostar depois de andarem já há 33 anos a enporcalhar meu nome sem que eu vos tenha feito mal algum? A mim parece-me que, precisamente por saberem o mal que me têm feito, receiam o confronto. Sosseguem. Isso é coisa de gente primitiva. Eu evoluí. Se o quisesse, tería-vos procurado a TODOS. Mas eu sou doutra casta. Assim que a vida me explicou a razão de serem assim para mim, deixei de sofrer e passei a viver feliz. E se puxar pela memória verá que fui eu que desapareci das vossas vidas e não vós... Por isso, mesmo que cá viessem, dificilmente conseguiriam por-me os olhos em cima...

Cara irmã do meu pai, ele de facto não consegue lembrar-se de ninguém, mas quando lhe dou um beijo, lhe digo que o amo e o abraço ele retribui com um sorriso frágil. Esqueceu-se das pessoas mas não dos afectos e do quanto isso lhe sabe bem... Sabe, minha cara, quando perdi a minha menina, as pessoas que ficaram com ela detestavam-me. E mesmo assim, sob ameaças, a fazerem-me esperas na escola dela para eu não me aproximar e ir lá vê-la, eu fui, sempre que o quis, sem medo de ninguém nem me importar com as consequências. Tudo isso para lhe dar um beijo e dizer que amava e que iria lutar por ela até ao fim da minha vida. Consigo, nem sequer se põe esse problema: foi-lhe dito já por 2 vezes ao telefone que podia cá vir sempre que o quisesse.

Não diga jamais de novo que tomar conta do meu pai é um dever e uma obrigação. Tomar conta dele é um privilégio e uma honra que fazemos sem qualquer sacrifício e com muito prazer. Eu sei que para si isso é difícil de compreender principalmente depois da grande disputa que travaram entre vós para se entenderem quando foi necessário cuidarem da vossa mãe. Mas aqui, tal como lhe disse anteriormente, somos pessoas diferentes. Nós somos azeite e vós, água. Por isso a mistura jamais será possível. E permita-me que lhe diga, a sua mãe partiu triste e seu pai revoltado. Serão anjos sim, mas não partiram em paz.

Ao contrário do que escreve, amor é, deixar as intrigas para acudir à solidão de um ente querido, é dar um abraço forte e ser capaz de dizer: "Desculpa mano! Amo-te muito e estou aqui contigo. Esquece tudo o que foi dito!". Para uma pessoa emocionalmente desestruturada como é seu caso, que andou e anda à deriva, entendo que confunda o que realmente é o amor. Espero que tenha aprendido alguma coisa.

A história ainda está a ser escrita. Não podemos mudar o que já passou mas podemos sempre alterar o seu final.

Pense nisso...





    

        







sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

DIÁRIO DE UMA MEMÓRIA PERDIDA - O CARVALHO


Quando minha mãe me comunicou ontem que tinha lá estado em casa um dos meus tios, pensei: "Aleluia!". Mesmo tardio é sempre bom saber que  os afectos existem e que apesar de todas as intrigas familiares, há coragem para deixar de lado interesses menores para dar importância ao que realmente interessa: abraçar meu pai. No entanto a minha alegria depressa se dissipou à medida que a minha mãe me relata como tudo se passou.... "Ele veio cá por causa de um carvalho... - disse ela a dado momento - vinha sozinho sem tua tia, numa carrinha branca e depois de me cumprimentar disse-me que havia no terreno do pai um carvalho que tinha ramos para o lado dele e as folhas estavam a deitar lixo..."  Sem conseguir disfarçar o meu espanto, ela continua: "Disse-me que tinha de cortá-lo eu ou mandar o meu mensageiro do costume fazê-lo porque não queria as folhas nem os ramos no que era dele..." Explodi! Há coisas que de tão execráveis não temos palavras que possam descrever o sentimento que nos invade por indivíduos assim. E a pergunta não se fez esperar no meio daquela minha vontade de o esganar se o tivesse ali: "Mas ele veio para ver o pai?!!!!!!!! - perguntei eu possuída pela raiva. "Não - respondeu ela calmamente - quando acabou de dar o recado, perguntou como estava o Manuel e eu respondi que se queria saber, que o fosse ver... e foi só isso que fez com que ele fosse". 

Pois é... um carvalho consegue fazer mover mais depressa alguém à casa do meu pai do que ele próprio. Começo a ter inveja desse carvalho que atrai tanta atenção em detrimento de outras cuja a existência pouco ou nada importa. Dirão eles um dia, depois de confrontados  que o carvalho foi um pretexto para la ir a casa, para verem como eram recebidos! IDIOTAS! Quem é que vai a casa de alguém visitar um  enfermo com um "pau" na mão pronto a bater?  

Os factos da vida escrevem-se assim, nua e cruamente do jeito que tudo acontece. E não vale a pena depois limpar imagens fazendo-se passar por vítimas disto ou daquilo.

 Pelas próprias mãos escreveram e continuam a escrever  o que eu apenas  relato.




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

DIÁRIO DE UMA MEMÓRIA PERDIDA - AS COMPRAS



Quando minha mãe me telefona, percebo logo que algo ia mal. Porque tinha ela tanta pressa que eu lá fosse se já estava combinado eu lá passar? Apressei-me o quanto pude para chegar o mais depressa possível junto dela. O que se terá passado desta vez? - pensei eu. Encontro-a completamente exausta a chorar copiosamente e depois de alguns minutos a pedir-lhe que se acalmasse, lá me relata a noite que tinha tido:" Não aguento mais! O teu pai levantou-se de noite e encontrei-o caído no chão e ali ficou sem eu me aperceber! Depois quis levantá-lo mas não conseguia...  Lá consegui trazê-lo a custo de novo até ao sofá mas passado minutos já tentava levantar-se de novo... Fiz uma barreira com o outro sofá mas tive de ficar ali porque ele empurrava com os pés..."  No meio daquele sufoco, percebi que tinha chegado o momento de ir às compras: uma cama articulada com grades, uma cadeira sanitária, um banco para o duche e uma poltrona adaptada eram fundamentais para dar alguma qualidade de vida ao meu pai, mas sobretudo, à minha mãe!

E lá fui eu ontem tratar das novas aquisições. Enquanto regressava das compras, vem-me um pensamento: quando nascemos, nossos pais compram-nos uma cama com grades, um potinho, uma cadeira  para sentar... Na fase final da vida são os filhos que compram para os pais, a cama com grades, a cadeira sanitária, e a cadeira com resguardo para sentar...   

Li algures que a vida é como uma roda gigante. Quando nascemos estamos em baixo, depois crescemos e começamos a subí-la. Atingimos o topo. E depois, devagarinho, vamos descendo novamente até ficar de novo cá em baixo...

A vida de facto não é mais do que um nascer, crescer, envelhecer e morrer. Não importa o que fomos. A todos espera o mesmo destino.  E as únicas coisas que levaremos connosco serão os afectos, as acções boas ou más e as memórias.

Meu pai irá carregado de amor e de memórias de uma vida dedicada à família e aos outros. E haja o que houver lá em "cima", ele entrará pela porta grande com todas as honras que merece.



    

DIÁRIO DE UMA MEMÓRIA PERDIDA - A DESCOBERTA




Já ando a dizer à minha mãe há já imenso tempo que pessoas com doenças do foro psiquiátrico não podem ser tratadas com violência ou rispidez. Mas, como sempre, não fosse ela casmurra, mesmo tendo tido uma má experiência relacionada com episódio semelhante, o certo é ela insistia em usar a força e autoridade para mover meu pai a fazer o que ela queria: se ele não queria comer, ela ralhava com ele; se ele não queria ficar quieto, ela ralhava com ele; se ele não queria deitar, ela ralhava com ele... e sempre assim, usando ainda a força que tinha para o demover. Meu pai lá ía ripostando mostrando o seu desagrado, e também ele, usando a força que ainda tinha para que ela parasse  de o obrigar àquilo que ele não queria. E eu, que presenciava alguns episódios, lá ía pondo alguma sensatez nela alertando que um dia ele poderia intentar agressivamente sobre ela. Ela nunca me deu ouvidos dizendo simplesmente que era assim que tinha de ser. Não valia a pena argumentar que os médicos existem para os medicar e acalmar e que a violência só trás revolta no doente.

Soube casualmente, porque ela calava-se sobre o assunto, que ele a empurrava e lhe dava socos nessas ocasiões. E mais uma vez tentei sem sucesso fazer-lhe ver que poderia correr perigo de vida caso insistisse naqueles métodos. Mas ela desvalorizou...

Por dar sinais de estar esgotada, ofereci-me para tratar da casa dela para ela poder descansar mais. Na semana passada, no meio das minhas limpezas, faço uma descoberta aterrorizante: espalhadas por vários sítios na sala onde meu pai permanece o dia todo, estavam várias facas cautelosamente escondidas. A descoberta não me surpreendeu. Ele já a tinha ameaçado que a matava. Mas quis o destino, e ainda bem, que a doença entretanto lhe retirasse bruscamente as forças: primeiro nas pernas, depois no restante corpo. Não fosse isso, uma tragédia avistava-se.

Quando confrontei minha mãe com o que encontrara, ela ficou sem palavras. Apenas a pensar. E quando finalmente caiu em si não consegue dizer outra coisa senão: "Ai meu Deus!"

Não a martirizei mais do que ela já estava com a descoberta. Remeti-me ao silêncio que ela entendeu muito bem. É que afinal, por muito que o meu pai a tenha amado, por muito amável que tenha sido outrora, agora demente, ele é outro, sem noção de nada e capaz de tudo. 

         

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O MEU AVÔ PATERNO

Eu não cresci com os meus avós, nem paternos nem maternos, e foi só aos 13 anos que comecei a privar com eles, quando regressamos definitivamente do Canada. 

Meu avô paterno era aquela figura que, numa primeira impressão, gostávamos logo dele: fazia rir toda a gente com a forma como contava suas histórias, era muito sorridente, muito conversador, cheio de energia que o tornava de certo modo cativante. Era nas reuniões familiares que o encontrava  e escusado será dizer, à época eram mesmo muitas... tantas que raro era o fim de semana que não nos juntássemos todos para alguma coisa. Ao início até lhe admirava a relação que tinha com minha avó a quem apelidava de "minha santa" e à qual se dirigia, aparentemente, com muito carinho e afecto. 

Porém, o tempo, ah! esse tão grande aliado, foi-me mostrando que nem tudo o que brilha é definitivamente... ouro. Os anos a passar revelaram um homem mesquinho, dissimulado, e mau, que, nem aos próprios filhos poupava nas críticas ou adjectivos impróprios. A primeira vez surge quando ouço comentar a vida, segundo ele, leviana da filha que, por ter um marido boémio, andava a passar uma fase menos boa. Encheu-a de nomes grotescos, pisou-lhe a imagem, rebaixou-a ao nível do chão, e perguntava-me eu, que pai era aquele que, ao invés de ajudá-la, a pisava.

Depois foi a vez de outro filho de quem ele dizia ter os filhos mais insuportáveis do planeta e cuja nora, a quem nunca se referiu como nora mas sim pela alcunha, dizia, quando eles não estavam presentes, que simplesmente não a suportava no seu estilo masculino de quem manda em tudo e se achava melhor que ninguém. Foi graças a ele, que todos ficamos a saber como tinha sido a vida deles em França, com detalhe quase obsceno. Destes... e dos restantes filhos, em França, claro!    

Mas ele não se ficava por aqui, e a dado momento foi a vez das  restantes filhas e por fim, o filho mais novo! Não poupou ninguém. Quando estava com uns, elogiava-os, quando estava com outros, arrasava-os! E eu cresci a ver isto sem perceber ainda que um dia chegaria a vez do meu pai e... a minha.

Quando a minha avó adoece, ele dependente dos filhos para lhe dar apoio, muda de estratégia e começa a afagar as filhas sabendo que seriam elas, em princípio, que o ajudariam. Pois é, mas como o tecido genético tinha sido herdado pelos descendentes, ao contrário do que ele imaginara, a questão virou uma autêntica batalha campal. Não fosse ele a correr fazer as partilhas para "obrigar ao compromisso", e teria ele ficado sozinho a cuidar da minha avó...  Apesar de ter sido essencialmente com o apoio das noras que ele deu conta à  vida, por razão nenhuma, como sempre, tinha de implicar com quem, não era filha mas fazia sua parte como se fosse, e na maior ingratidão imaginável! 

Estala o verniz do lado dos meus pais a quem ele começa a acusar de coisas terríveis e infundadas só pela malvadez de dizer mal. Pelo meio destas guerras, acaba por me atingir com insinuações grotescas classificando-me de tudo e mais alguma coisa de forma desprezível e maquiavélica! No entanto, um pormenor me distinguia dos outros:  eu nunca lhe tinha feito ou dito nada que justificasse esta falta de respeito pela minha pessoa. Pelo contrário, eu vivia à margem de todos os conflitos familiares. 

Mas uma carta dirigida ao meu pai, escrita pelas suas próprias mãos viria a determinar tudo aquilo que passei a sentir por aquela criatura: pena e desprezo! Em poucas linhas deixava perpetuar o que pensava do meu pai, da minha mãe e de mim. Jamais lhe perdoei o sofrimento e a tristeza que trouxe aos olhos do meu pai pelas palavras que lhe dirigiu, e a raiva pelo que me foi dedicado a mim e minha mãe! 

Soube da morte dele e pensei: faz boa viagem e descansa em paz, se puderes. E não fui à sua despedida. Fui sobejamente criticada, como sempre, pela família paterna inteira, que entende, que socialmente, independentemente de como tenha sido a nossa relação com a pessoa defunta em vida, hipocritamente, devemos comparecer só porque se trata de um enterro de um familiar. Mas falta dizer, que caso tivesse tido o desplante de aparecer, iriam todos  criticar-me igualmente, pelas razões inversas!!!! 

Cada um tem de mim exactamente o que cativou. E ao meu avô sobrou apenas desprezo.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

DIÁRIO DE UMA MEMÓRIA PERDIDA - OS IRMÃOS

A doença do meu pai foi oficialmente diagnosticada em 2005 mas muito antes disso, ela já tinha tomado conta do corpo dele. Surtos de agressividade, mudanças de humor repentinas, atitudes incompreensíveis fizeram com que certo dia não esperássemos mais e fomos ouvir o veredicto: tinha uma demência Fronto-temporal.

De lá para cá, a notícia correu a passo lento, porque ao contrário de outras, esta não interessava para nada: não era um divórcio, não era uma agressão familiar, não era uma desgraça alheia e por isso, comentar este assunto não dava adrenalina nenhuma. Pelo contrário, dava trabalho e chatice. Olha agora ter de visitar o Manel e ainda por cima chato e com falhas de memória! Ignorar foi o caminho de todos...

Meu pai tem 6 irmãos mas quem o vê acredita seguramente que é filho único. Em 9 anos de doença foi recebendo a visita de um deles até este se ausentar por completo; por outro que lhe fez apenas 1 visita fugaz; por duas tentativas de uma irmã para que se disponibilizasse para participar num convívio que, apesar de alertada para o lado anti-social da doença, insistiu sem sucesso. Nos Natais e aniversários, o telefone jamais tocou, as visitas nestas datas especiais, muito menos. Visto desta forma parece que ele foi uma pessoa terrível e que por isso, nem amigos, nem irmãos se importam. E de facto, o meu pai foi um indivíduo "execrável" para os irmãos. Ao mais novo, que era servente da construção civil em França, com a esposa a fazer limpezas, um trabalho humilde mas digno e a viver num cubículo que era simultâneamente quarto, cozinha e sala para 4 pessoas, quando lhe pede ajuda para sair daquele país, meu pai coloca-o como sócio da sua empresa em Portugal. Mesmo assim, e não satisfeito porque os clientes o tinham como o número dois e nunca queriam tratar dos assuntos senão com meu pai, as queixas sucessivas fizeram com que novamente, meu pai, tal como nos tempos de gaiato, preocupado com os irmãos, idealizou e criou um negócio de exploração de areia fina, e pô-lo na gerência. O irmão do meio, a saber das ajudas concedidas ao mais novo, pede ao "tenebroso" meu pai, ajuda também. Esse, também na construção civil, regressa de vez de França e ingressa na sociedade. Um negócio de "ouro" onde não tardaram as desavenças provocada pela  "senhora" que achava injusto repartir os lucros tão elevados das areias com os menos elevados da indústria. O "patife" do meu pai, que vendo a relação degradar-se com seus irmãos por causa dos negócios,  resolveu dar-lhes... a galinha dos ovos d'ouro que eles tanto queriam para si. Valeu ao mais novo a desistência do outro, ficando sozinho nesse universo de exploração milionária! 

Depois vieram as partilhas, e o "ladrão" do meu pai, mais uma vez, sentou-se impávido e sereno nas reuniões, num papel passivo e desinteressado dizendo claramente: "Escolham! A minha vida já está ganha. Mais propriedade, menos propriedade não me interessa mesmo nada!" E assim foi. Escolheram todos. Alguns até já tinham escolhido, negociado e escriturado  bens muito antes das partilhas. Outros em negócios secretos, já se tinham apoderado de propriedades para eles e filhas com o aval do meu avô, é claro!. Ah! Mas isso, tal como diria Teresa Guilherme: "Isso agora não interessa nada..." Houve quem se arrepende-se da escolha e lhe pedisse para trocar de novo. E ele trocou.    

O que de facto o meu pai fez de mais tenebroso na vida foi ajudar os irmãos. Antes o tivesse feito, enquanto o pude,  à caridade, aos sem abrigo, aos pobres... Se assim tivesse sido hoje muito provavelmente teria grandes irmãos da vida, agradecidos até à morte pelas preciosas ajudas e a casa cheia de gente.

Mas o mais velho de 6 irmãos, que em menino descobria as chouriças e o mel mas que fazia questão em repartir com os mais novos às escondidas do meu avô, mesmo sujeito a ser descoberto, hoje não tem louvores de nenhum deles. Não tem afecto de nenhum deles.

 E ao altruísmo dele, responderam-lhe com o abandono... 





   

DIÁRIO DE UMA MEMÓRIA PERDIDA - A INCONTINÊNCIA





As mudanças vão chegando cada vez mais rápidas. Ainda há pouco tempo meu pai andava: já quase não anda. Tinha memória suficiente para se recordar algumas vezes de nós: agora já não sabe quem somos. Sorria e falava assim que me via: agora nem sorri e mal fala. Dava os seus passeios pelo quintal: agora não sai do sofá. E como se isto já não bastasse já é incontinente...

Num espaço de uma semana, em catadupa, a vida do meu pai transformou-se radicalmente. De olhos vazios, sempre calado ou a dormir, sem autonomia até para ir sozinho à casa de banho, o primeiro deslize acontece como que um aviso: brevemente acamará. Já não controla as mais pequenas necessidades básicas.  E desengane-se quem pensava que ainda ia muito a tempo de o ver. Já não resta dele aqui senão a carcaça, um corpo que embora não seja velho, apenas representa um estado físico de alguém. De um ser humano, de uma pessoa sem identidade, sem vida. 

Meu pai com memórias e histórias que repetia sem fim já não está no meio de nós sendo-lhe indiferente quem o rodeia. 

Quem privou com ele estes tempos, levará ainda bocados partilhados dessa despedida, lenta e tenaz. Os outros, ficarão com nada... senão com o passado.  


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

DIÁRIO DE UMA MEMÓRIA PERDIDA - O SAPATO



O tempo vai passando sem que nos apercebamos do quanto a doença evolui. Tendencialmente somos levados a pensar que tudo flui devagarinho até que um dia, surpreendentemente verificamos o quanto estávamos errados.

Meu pai perdeu a memória mas aqui e acolá, ia dando sinais que se lembrava de algumas coisas: embora com uma conversa pouco fluente, dava conta de coisas do passado com exactidão e a nós, com uma falha de vez em quando, acabava sempre por nos reconhecer. 

Nestes dias, ele estava como sempre, a implicar com os chinelos. Minha mãe tinha-lhe comprado uns chinelos novos mas ele queria os velhos... Dizia que os novos o faziam cair. E não fosse ele teimoso, minha mãe para que ele parasse com aquilo, gracejou dizendo: " Se preferires dou-te os meus!" Imediatamente, meu pai, fixando os sapatos dela, responde:" Quero!" Sem saber o que dizer e pensando que ele estava a mangar, nega-lhos dizendo que eram sapatos de senhora e que tivesse juízo! Mas eu, ao contrário, observei-o  tentando perceber o que se estava a passar e digo:" Mãe, dá-lhe o sapato!" E ela  assim o fez. Entregou-lho e assim que pegou nele, meu pai tentava insistentemente calçá-lo no pé. Era uma sandália branca de senhora de tacão alto. E enquanto ele se debatia com aquela tarefa árdua de o fazer caber no pé, dentro de mim invadia-me uma tristeza monumental. Percebi  que já nada do meu pai ali estava. Nem uma réstia da sua identidade, do seu ser... Já só permanece o corpo lento, cansado e doente. A muito custo segurei uma lágrima e disse:" Mãe, o pai já se foi de vez. O que está ali é só um corpo. Ele já não sabe o que faz e tenho a certeza que já não nos reconhece às duas." Dito isto, dirigi-me a ele e ternamente digo-lhe para não insistir mais porque o sapato era pequeno além de ser menos bonito que as suas chinelas novas. Isso não o demoveu de insistir nas chinelas velhas, mas pelo menos desinteressou-se das sandálias da minha mãe. Enquanto olhava para ele e lhe afagava o cabelo, pergunte-lhe se sabia quem eu era. E ele, com um olhar distante e vazio responde:"Não!" Então apontei para a minha mãe e faço-lhe a mesma pergunta:" E aquela? Sabes quem é pai?" Virando-se lentamente para a ver melhor, sem hesitar, responde com o mesmo"não".

Não tenho dúvidas. O meu pai já "partiu"...




O CASTING

O anúncio já tinha passado várias vezes na tv até que um dia pensei: "É hoje!" Porque não?! Sonhar não tem idade. E se eu  tentasse? 

Até que o dia da audição chegou. Na madrugada fria do dia 9 de Setembro seguimos em direcção ao Porto. Tínhamos consciência que era preciso sair cedo para não apanhar muita fila porém, à chegada, ficamos a saber que o conceito de "cedo", para nós, é demasiado tarde para os castings... e tínhamos assim , às 7h da manhã,  apenas cerca de 1 milhar de pessoas à nossa frente. Um mar de gente. Uns enrolados em sacos cama, outros em cobertores, deitados no passeio ou de pé, a ouvir música ou a tocá-la, mas todos com a mesma motivação: a música! Jovens e menos jovens, caras conhecidas outras nem por isso, gente de todos os estilos aglomeravam-se por todo o recinto. A equipa da produção sempre numa azàfama lá iam chamando de tempos a tempos pelos números de cada concorrente. Pelo meio, ensaios sem fim de spots publicitários em que todos em uníssono nos agitávamos histéricos para a câmara amovível! Uma espera interminável que só foi interrompida  ao fim do dia ... Para ficar a saber que, com tanta gente ainda para ouvirem, as opções para nós era voltar no dia seguinte ou esperar por novas audições!! Com a promessa que iria-mos ser logo atendidos, sem fila de espera, decidi voltar no outro dia.   

Desta vez, assim que chegamos, entrei logo para o check-in. Depois da entrega do formulário e a foto da praxe frente ao "logo" do programa, segui para a sala de espera. E eu que até ali estivera sempre muito calma, de repente senti-me invadida por um misto de medo e nervosismo atrozes. Sentia as batidas dentro do peito cada vez mais intensas e sem saber porquê também, fiquei com um dos ouvidos tapados... "Boa"! - pensei eu - agora além de nervosa pra morrer vou também meio surda! Não esperei muito até ouvir o meu número - 8099 - e em pequeno grupo lá subimos para a sala das audições. Enquanto ouvia o candidato que entrara à minha frente pensei no quanto iria perder a minha prestação por não ter trazido o suporte musical que tinham pedido. Ia cantar àcappella e isso aterrorizava-me. De repente a porta abriu-se e gentilmente sou convidada a entrar. Apenas um cameraman e um membro da produção na sala. É-me dito para me colocar no  X por baixo dos holofotes e ao 1,2,3 ... começar! Lembro-me de começar muito bem e de ver os rosto daquele homem sorridente com o resultado mas a dado momento páro! Esqueço-me da letra. Pergunto se posso repetir. Com um sorriso franco no rosto, é-me pedido para ter calma. Passo para a canção seguinte. Mas à segunda vez... volto a ficar em branco. Dentro de mim, um sentimento horrível da falhanço, logo eu que não gosto nunca de falhar. Aí, o membro da produção levantou-se. Dirigiu-se até à janela, tirou um cigarro enquanto olhava para mim dizendo:" Você sabe quantas pessoas estão ali fora? Eu não costumo fazer isto mas confesso que gosto muito do seu timbre de voz... Por isso, cante mulher! Perca esse medo e cante! Cante como se estivesse no chuveiro, no carro, a limpar a casa, mas cante! Bote pra fora essa voz que tem!" Senti que era o tudo ou nada e aquelas palavras caíram-me bem. Cantei o tema até ao fim mas com o sentimento que ficaria por ali... Quando terminei, foi-me dito que tinha sido pena esta insegurança. Que tinha boa presença física, boa voz mas que isso não era o suficiente. Mesmo assim deixou no ar que por ele, passava mas que dependia dos colegas ao ver o vídeo. Disse-me ao despedir-se:" Não prometo nada, vai depender muito daquilo que os outros vão achar. Foi uma pena. Você canta muito bem!"

Saí tristíssima pelo corredor fora, a passo mecânico, alheia a tudo que me rodeava. Até que uma voz chama por mim:" Espere! Vai para aquela sala para entrevista!" Enquanto esperava reparei que muitos saíam sem serem entrevistados e imaginei que talvez isso pudesse querer dizer alguma coisa...  De semblante carregado desci depois para junto do meu companheiro de viagem a quem revelo o desastroso casting. Ao abandonar o edifício, tivemos ainda tempo de esbarrar com a Bárbara Guimarães e o Manzarra, que, ao reconhecer o vendedor do seu dogue, simpaticamente nos cumprimentou aos dois, com direito a beijinhos também...

Mesmo desiludida, levava comigo alguma esperança que se esvaneceu assim que o prazo previsto para me contactarem terminou. Os primeiros tempos foram difíceis pois não me perdoava tamanha falha. Tinha aberto uma caixinha de um sonho guardado há tanto tempo e fechada pelas circunstâncias da vida a sete chaves e não soube agarrar o momento como deveria...

Mas hoje, já superada desse desgosto, percebi que se não aconteceu foi porque ainda não era o momento. Entendi que guardar tanto tempo um desejo de criança não me deu traquejo para subir a um palco e que por muito que a vida me afastasse das minhas crenças, deveria ter lutado um pouco mais por aquilo que realmente me fazia feliz: a música. Mas não me arrependo de nada. Lutar por aquilo que queremos é intemporal e correr atrás dos sonhos é um acto de coragem que só os loucos entendem. Faria tudo de novo mas com mais convicção e mais garra!

Faria não, farei! Porque se outros castings houver, eu vou!


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

DIÁRIO DE UMA MEMÓRIA PERDIDA - A QUEDA



Foi o destino que me trouxe àquela hora.  Até porque a consulta era só às quatro da tarde. Mas tinha coisas para fazer a pedido da minha mãe e decidi ir mais cedo... Ao aproximar-me da casa dos meus pais sinto alguém a correr. Pensei de imediato que seria meu filho que regressava da escola mas de repente, um estrondo na garagem que não podia ser de uma criança, fez-me temer o pior: meu pai acabara de cair com violência. Apresso o passo e assim que o avisto, de cara completamente colada ao chão, ensopado em sangue, imóvel e sem fala,  tento a todo o custo que ele reaja à minha presença tentando ao mesmo tempo levantá-lo. "Pai, estás bem?! Fala comigo!" Levantei-lhe a cabeça, depois o corpo, pesado e morto sem que proferisse uma palavra, um gemido. "Pai, fala comigo! Consegues andar?!"  Sem resposta, chamo pela minha mãe na esperança que ela me ouvisse: "Mãe estás aí?!! Ajuda-me, o pai caiu e feriu-se..." Amparado pelas duas, foi até ao seu lugar de sempre: o sofá.

Já com a maleta dos primeiros socorros, trato-lhe das feridas com todo o carinho e cautela para não o magoar. Nos cantos dos olhos, encontro duas lágrimas teimosas que caem...  "Tens dores pai?! Mas ele não responde. "Deixa-me ver a boca por dentro, estás a sangrar muito..." A muito custo obedeceu. As minhas suspeitas estavam certas: tinha um golpe profundo no lábio inferior. Depois dos curativos deitei-o e fiquei  durante uns largos minutos a contemplá-lo. O meu pai, outrora tão forte e cheio de vida estava ali tão indefeso, tão frágil. A doença está a levá-lo a cada dia que passa sem dó nem piedade sugando-lhe a pouca autonomia que ainda lhe restava. 

Virou-se um capítulo. Ainda ontem dava as suas voltinhas pelo quintal sem merecer cuidados. Hoje, só amparado para não cair... 

Sinais que nos dizem que a próxima etapa está perto... demasiado perto...

    

terça-feira, 14 de maio de 2013

O BOATO



Os meus pais acabavam de chegar de um fim de semana com os CEO da Cimpor. Meu pai vinha radiante, não só pelo convívio mas sobretudo pelo que ouvira: os dirigentes daquela empresa tinham enaltecido veemente  o meu desempenho  na direcção da nossa empresa. Ele não cabia em si de contente e de orgulho. E eu, surpreendida por tamanhos elogios, também fiquei feliz por ver meu trabalho reconhecido.

Porém, na semana seguinte, de regresso da casa do meu avô, meus pais com semblante carregado, perguntavam-me, como que a medo, se a empresa estava tecnicamente falida!! Sim, tal e qual, com estas palavras! Em choque, pergunto de onde tinha vindo tamanho disparate. E claro tal como um bom boato que se preze, ninguém sabia dizer de onde vinha! Apenas se sabia que era meu avô o portador da tão aterrorizante notícia! Em poucos minutos, tentei tranquilizar meus pais explicando o absurdo daquele comentário com factos e de imediato disse-lhes que convocaria uma reunião com o contabilista para pôr tudo e pratos limpos e que não receassem de nada. Que veriam com seus próprios olhos que nada daquilo tinha fundamento... Mas o certo é que do medo e da dúvida, já não os livrava. Meu pai, que confiava cegamente na minha gestão estava pela primeira vez com dúvidas e receios... e eu revoltada, começava o meu trabalho de investigação á procura do autor da triste brincadeira. 

Não demorou muito até o veredicto chegar ás minhas mãos, até porque quando estamos a lidar com pessoas pouco inteligentes, facilmente chegamos ao rasto deixado pelas maléfilas línguas...  Lembrei-me que já por diversas vezes o contabilista do meu pai, um profissional com imensas limitações de formação básica, me perguntava se a empresa andava bem. Pergunta a qual eu estranhava pois sendo ele contabilista, tinha em seu poder a informação necessária. Porém, percebi que o senhor, depois de termos contraído o nosso 1º empréstimo bancário, no balanço, os activos eram inferiores aos passivos... Um mistério que facilmente desvendei quando descobri, em análise pormenorizada ao balanço analítico, que esse senhor não tinha contabilizado 20 000 m2 de terreno, propriedade da nossa empresa. Ou seja, tínhamos andado até àquela data a laborar em cima da atmosfera! Ora, se os activos não estavam todos no balanço... estavamos realmente com a aparência (no papel) de uma empresa tecnicamente falida... 

Descoberto de onde tinha saído a informação, faltava chegar ao responsável pela transmissão ao meu avô! E se a primeira fase foi fácil lá chegar, a segundo muito mais!! As únicas pessoas de família que partilhavam o mesmo contabilista era o único irmão do meu pai que se encontrava em Portugal. Para que não restassem dúvidas confrontei o contabilista e disse-lhe declaradamente que sabia que a informação, apesar de a negar, tinha saído daquele escritório porque até as palavras usadas eram as mesmas que ele tinha usado. Mais ainda, o mesmo senhor, nas nossas reuniões, fazia o mesmo com meus tios, contando-nos as trapalhadas que eles tinham com o fisco, da falência fraudulenta à firma criada com ajuda do meu pai e que estava a ser investigada... Enfim, se ele transmitia o que sabia dos meus tios... também o faria connosco! Óbvio!

Os meus tios, ao saberem das minhas acusações, indignaram-se, coitaditos ao ponto de mandarem recados de que não sabiam nada do assunto... Que tinha sido uma tia em França. Claro... pura idiotice e malabarismo de distracção.

Mesmo depois de tudo provado, meu pai nunca mais foi o mesmo. Sentia nele insegurança que por muito que tentasse, não conseguia lhe aliviar o medo. Meu pai estava diferente. Até ao dia que por doença, resolveu vender a empresa. Pensava ele, que a empresa valeria pouco no estado em que diziam estar e mesmo querendo acreditar muito que eu é que estava certa, só quando viu a proposta de venda que eu lhe arranjei é que tomou a verdadeira dimensão do boato que nos tinham criado! Ela valia milhões!! Surpreendido disse-me: "ela vale isto tudo?!!!" Ao que eu respondi: "Vale muito mais, pai. Esta é a 1ª proposta,  se esperares, tenho outra proposta para o dobro!". Mas meu pai não quis esperar por mais negociações... e vendeu aos espanhois radiante por ter feito o negócio que nunca imaginara!   

Apesar dos danos irreparáveis que este boato nos fez passar, fico feliz por,  antes  de perder totalmente a memória, meu pai ter tido tempo de ficar com este sentimento resolvido dentro dele,  radiante por constatar que nunca teve uma empresa falida e recuperar a confiança inabalável que sempre teve por mim.   

Os boatos deviam ser criminalizados como tantas outras coisas, pelos danos sérios que provocam na vida das pessoas. Jamais esquecerei o quanto me abalou a vida, assim como jamais perdoarei as pessoas que o criaram.

           

segunda-feira, 13 de maio de 2013

SABER ENVELHECER

Está na moda atrasar o mais que possível o efeito da passagem pelo tempo. Esticam-se as peles, levantam-se os seios e os traseiros  na esperança de prolongar a vitalidade da juventude, como se fosse possível adiar a velhice. E pergunto-me: quem é que quer parecer uma pin-up de 70 anos? De que serve algumas partes rijas no meio da flacidez inevitável de outras? Que beleza tem um corpo mais ou menos delineado com tudo arrebitado e um esqueleto ligeiramente arqueado e trémulo do tempo?  Por outro lado, a que faixa etária estarão a seduzir se os jovens vão continuar a preferir as mais jovens e os séniores sentir-se-ão muito mais confortáveis ao lado de alguém que também como eles terão os sinais e limitações da idade.  

Confesso que até aos meus 46 anos nunca senti o tempo a passar a não ser uns cabelitos brancos teimosos que apareceram cedo demais. Mas ao contrário da maioria das mulheres, gosto de envelhecer. Não me preocupo com nada senão em fazer uma vida saudável e cuido naturalmente da minha imagem sem bisturis. Apagar sinais do tempo é como matar traços da nossa história. Cada ruga é um trecho contado no tempo desse legado da vida. Sem saudosismo olho para trás sem lamentar a juventude que outrora tive, consciente que à medida que o tempo avança a jovialidade perdida se transforma em sabedoria. E como eu adoro esta nova fase. É uma forma de ver a vida completamente diferente. É uma calma e serenidade imensa. É um marimbar para aquilo que os outros dizem ou pensam. É uma tranquilidade espiritual nunca antes sentida. 

Envelhecer é ter o privilégio de estar por entre os vivos e puder usufruir da vida de outra forma que aos 20 não é possível. É ter tempo para fazer o que sempre quisemos fazer, ir para onde sempre quisemos ir, sem pressas, sem stress, com toda a tranquilidade do mundo usufruindo cada minuto como se fosse o último. É voltar aos hobbies antigos que deixamos pelo caminho por estarmos demasiado embrenhados na carreira.

Quero envelhecer,  e chegar até onde meu corpo me deixar. O meu único desejo nessa fase é percorrer essa etapa com saúde e lucidez. Quero ser  e parecer "avózinha" sim! Bonita e bem cuidada mas de acordo com a minha idade.

Tenho pena daqueles que lutam toda a vida contra esta realidade. A felicidade começa na aceitação da vida tal como ela é. E contrariar a natureza é apenas tapar o sol com a peneira e adiar frustrações.      

segunda-feira, 1 de abril de 2013

OS MARIDOS DAS OUTRAS

Casei cedo e divorciei cedo. E assim, logo que recuperei a minha liberdade, durante mais de onze anos, não quis saber de compromisso sério com ninguém. Não fechei as portas ao amor e apaixonei-me de novo mas sempre num conceito muito próprio: tua casa, minha casa. Simples. Não estava preparada para repetir erros terríveis a que vivi aprisionada. Por isso, dali em diante vivi a vida com paixão e despreocupação. 

Foi o período das descobertas. Se por um lado o casamento precoce me tinha roubado a experiência, caminhar sozinha depois do divórcio ensinou-me coisas que nunca vira nem imaginara. Trazia ainda a pureza de quem não vê maldade no Mundo. Tinha acabado de travar a maior luta da minha vida pela minha felicidade e acreditava nas histórias de amor com finais felizes... Acreditava... porque hoje acredito na felicidade a meio termo, como algo nunca completo, nunca acabado. E por culpa talvez do que os meus olhos viram e sentiram durante este período de tão grande aprendizagem.

Frequentava a Leitaria todos os dias, local de eleição das minhas manhãs onde os croissants eram os melhores do mundo. Um pequeno local, sempre apinhado de gente, cujos os rostos nos foram tornando familiares. Foi dali que o vi pela primeira vez. Fazia-se sempre acompanhar da esposa  e muitas vezes se lhes juntava as cunhadas também. Um grupo sempre animada que não passava despercebido. Ele, sempre atencioso à sua bela esposa, fazia desviar olhares pela beleza do carinho que lhe transmitia. Dei por mim muitas vezes a pensar que adoraria ter um amor assim... 

Um dia descobri outro lugar comum: a oficina. A esposa, alta e esbelta, aparecera na mesma oficina de que era cliente para aí deixar o carro para uma lavagem. Até que um dia, em vez dela, surge o marido. Numa conversa trivial, enquanto esperava pelo meu carro, dirige-me a palavra. Nem me lembro do que terá dito ou perguntado de tão banal que foi. Lembro-me isso sim, que daí em diante, era sempre ele que levava o carro à oficina... 

Passou a ser um conhecido, com uma conversa inteligente e agradável. E desde então, sempre que me via "roubava-me" um café por uns minutos de conversa. Nunca vira mal nenhum, nem intenção disfarçada naquela simpatia. Afinal, não podem mulheres terem amigos homens? Poder podem, mas descobri mais tarde que esse, não é privilégio de todos... Os cafézinhos tornaram-se frequentes sem que eu visse maldade nisso, e parecendo ser uma pessoa extraordinária, comecei a ficar à vontade para confidenciar coisas como por exemplo, a grande crise que abalava naquela altura a construção civil e os problemas que estava a causar á minha empresa. Atento, e sem eu lhe pedir fosse o que fosse, ofereceu-se para ajudar. Também ele tinha uma empresa e consequentemente muitos conhecimentos que me poderiam abrir portas a um empréstimo que naquele momento era vital. Combinamos o dia e fomos juntos tratar desse assunto de trabalho. Pensava eu... De facto levou-me até um gerente de banco e de facto estivemos a falar de trabalho, mas no regresso, a conversa começa a adulterar-se , virando-se para outros assuntos bem diferentes. Diz-me que se sente atraído por mim e não aguenta mais... E eu aterrorizada, no carro, sem saber o que fazer, apelava a seu bom senso, suplicando para não misturar as coisas. Em vão. O carro em vez de seguir o seu destino desvia-se. Em silêncio tento não entrar em pânico, demonstrando uma calma inexistente. Acreditando estupidamente que não era aquilo que eu pensava que era, entrei no elevador. Tinha dito que vinha ali buscar uns documentos, que subisse para não esperar muito no carro, e que tomaria um café enquanto isso. Mas assim que me sentei no sofá, invadiu-me com abraço forte na tentativa de um beijo roubado. Inesperadamente levanto-me, sob o espanto dele, e exijo que me leve de volta. Mas o desespero de me querer naquele momento levou-o a insistir, obrigando-me a soltar-me com brusquidão. Felizmente para mim, entendeu e largou-me naquele instante. Em silêncio regressamos à cidade.

Nunca mais voltei à Leitaria, nunca mais voltei àquela oficina. Saí de cena. Voltei a vê-lo anos mais tarde, ao longe, sem que ele desse por mim. Sempre com a esposa, sempre tão amável e gentil com ela. Aprendi que a felicidade pode ser apenas uma ilusão e que muitas de nós jamais saberemos o que deveríamos saber. Que estes episódios não param de acontecer debaixo da cegueira de muitos.  E o pior foi constatar que não são casos isolados: depois deste, juntaram-se, infelizmente, mais uns tantos casos de gente que gosta de estar em dois lados sem estar verdadeiramente em nenhum.




A VIDA EM POESIA - TEMPO



Procuro no tempo,
Aquele momento,
Em que fui verdadeiramente feliz.
Mas não sei se é do tempo,
Mas só sofrimento,
É o que ele me diz.


Chuva e vento,
Mais e mais tormento,
Que sina é esta,
Que nem o tempo,
Me traz no vento,
Alguma felicidade.
Nem mocidade,
Nem avanço na idade,
Me leva ao encontro,
De tão nobre sentimento.


Estará guardado num recanto,
À espera do embalo do vento,
Porque o tempo, esse,
Que não volta nem com o vento,
Levou para longe  de mim,
A saudade de criança,
Onde tudo era esperança,
E felicidade sem fim.


quinta-feira, 28 de março de 2013

ANTES NÃO ERAS ASSIM

Já ouvi tantas pessoas a lamentarem-se sobre as mudanças no companheiro. A recordarem os momentos de namoro em que se entendiam na perfeição. Mas as pessoas não mudam. O que muda são as circunstâncias em que esse amor passa a existir depois de se juntarem. Enquanto namorados não temos preocupações conjuntas senão em amar, amar muito. Em fazer de cada momento, um momento feliz, agradável e inesquecível. Preocupamo-nos com todos os pormenores e não descuramos de nada porque sabemos que precisamos de agradar, de despertar desejo e paixão. Imaginação não nos falta nem mesmo motivação porque os problemas que possam existir ficam sempre à porta, e não os deixamos entrar nem por um segundo naquele universo só dos dois. Como se não quiséssemos manchar os poucos bocados bons da vida passados junto do nosso amor. E se levamos alguns para partilhar em busca de apoio e conselho, somos abraçadas pelo companheirismo dele que nos ouve, nos orienta e até se emociona com a nossa dor...   

Quando o casamento acontece, os cenários mudam. E como a maioria dos príncipes de hoje vêm a pé, a realidade passa a por-nos à prova num palco que nunca pisamos. A coabitação diária começa a revelar pequenos hábitos de cada um: mau humor matinal, meias pelo chão, osciosidade....  Depois virão os filhos que apesar de muito desejados e amados, retiram privacidade e tempo de dedicação ao nosso companheiro, alteram projectos de vida, hábitos, colocando temporariamente o casal em segundo plano. Depois virá também a rotina, a boa e a má: a que nos põe um sorriso todos os dias por acordar ao lado de quem amamos e a que nos transporta para um dia a dia sempre penoso e igual de trabalho por muito que gostemos do que fazemos. Do cansaço, da monotonia. Se a isto tudo se juntar ainda dificuldades financeiras pela perda de emprego, o nível da prova aumenta de tal forma que muitas são os que não conseguem sobreviver à maratona desfalecendo antes de atingir a meta. 

A vida a dois é como peças de dominó colocadas cautelosamente, uma por uma, mas que basta um ligeiro toque numa delas para tudo ruir. Há quem consiga sabiamente, na derrocada, impedir que todas as peças caiam. Há quem consiga, mesmo com algumas peças caídas, prosseguir. Há quem ainda, mesmo com tudo no chão, consiga ressurgir e reconstruir de novo. Tudo dependerá do amor que os uniu. Porque há amores sólidos, capazes de ultrapassar obstáculos duros e há amores que não resistem sequer ás alterações físicas da idade...  

Os cenários da vida revelam-nos. Não nos mudam. E ter consciência disso é meio caminho andado para uma união feliz. O grau de sucesso dessa mesma relação dependerá depois do que descobrirmos: ou bem que gostamos do que ela nos revelou, ou bem que nos desiludimos profundamente.   

As pessoas não mudam, revelam-se.

quarta-feira, 27 de março de 2013

A VIDA EM POESIA - PROCUREI

 
Procurei,
Por caminhos tortuosos e escuros,
Por entre lágrimas de dor e sofrimento.

Caminhei,
Sem destino nem horizonte,
Sem fé nem esperança.

Chamei,
Por um sentimento,
Cúmplice no amor,
Companheiro na solidão,
E tu chegaste, amor, numa noite quente de verão.

Abracei os teus olhos,
Entreguei-me ao teu sorriso,
Não sei se por magia,
Não sei se por encanto,
E amei-te nesse mesmo instante.

Destes luz às minhas noites,
Companhia à minha solidão,
Transformaste a minha vida,
Numa melodia de paixão.

Se hoje meus dias são orgias,
A ti te devo tão somente,
A ti meu diamante azul,
A ti minha pedra rara,

A ti que eu amo.


Julho de 2002

terça-feira, 26 de março de 2013

A VIDA EM POESIA - DESPEDIDA

Uma folha de papel,
Algumas palavras escritas,
Uma mão começa a escrever.
É uma despedida, é um adeus para sempre...

Faltam-lhe as palavras,
Juntam-se as lágrimas,
Corre um pensamento,
Quem sabe um arrependimento.
Recorda uma doce lembrança,
Um homem lhe dá esperança,
E a mão continua a escrever...

As palavras lembram um passado,
Uma dor num coração amargurado,
Sofrido, partido,
Por um amor não correspondido.

Foram dias, passou-se um ano,
Foi um sufoco,
Um eterno engano.
Mas acabou, morreu.
Tudo o que foi já não será,
Tudo o que nasceu morrerá.
É uma despedida, um adeus para sempre...

Mais uma vez olha seu retrato,
Recorda seu belo rosto,
Todas as belas promessas,
Todos os meses de desgosto.

A tinta já não quer deslizar,
O papel está-se à acabar e ...
"Desta tua sempre amiga..."
E a mão pára de escrever.


Setembro de 1983

A VIDA EM POESIA - RENCONTRE




Te revois-lá devant moi.
Toujours le même sourrir de tristesse,
Toujours les mêmes yeux de condanner.
Tu ne m'as pas oublié...

Et pourtant je t'ai souvant dit
Que l'amour pour nous,
Ne pourrais jamais existé,
Tu ne m'as pas compris,
Tu as voulu insisté,
Et tu ne m'as pas oublié...

Tu me repétais "je t'aime",
Et tu me berçais dans tes bras,
Comment t'expliquer ma peine,
De savoir que je ne t'aimerais pas.
Je l'ai tout de même regretté,
Et tu ne m'as pas oublié...

Pourquoi pleurer maintenant,
Maintenant que tout est fini,
Puisque plus n'est comme avant,
Et que mon amour ne t'a pas suivit.

Non, ne me regarde pas,
Avec ces yeux de douleurs,
Je t'en suplit oubli moi,
Vá chercher ton bonheur

Et si un jour tu penses à moi,
Comme on pense à un frère,
Pardonne tout ce que j'ai fait autrefois,
Et redeviens mon ami le plus cher.

Junho de 1983

segunda-feira, 25 de março de 2013

E SE CRISTO VOLTASSE À TERRA

Pergunto-me o que diria Cristo se voltasse. O que pensaria da Igreja criada pelo seu apóstolo e como reagiria ao ver um Estado, o mais rico do Mundo,  dentro doutro Estado. Um mundo á parte, fechado aos olhares de todos, onde mulher não tem lugar. Um lugar de ostentação e poder onde a partir dos seus castelos e aposentos de luxo, governam . Que sentiria ao ver que enquanto a Igreja gasta milhões nos preparativos para a eleição de novo papa, cheio de pompa e circunstância, milhares morrem todos os dias de fome sem que haja donativos vindos do Vaticano que não põe a riqueza ao serviço dos mais desprotegidos. Que diria dos mordomos, dos secretários e dos criados. Da segregação dos homosexuais, da pedofilia consentida, da exclusão dos divorciados, da negação do preservativo, da vida pouco desprendida das coisas mundanas, dos palácios e tronos, das vestes de ouro e tapetes vermelhos... 

Ao olhar para os fieis histéricos pela nomeação do novo Papa, não consigo me emocionar. Nem consigo compreender porque choram ao ver o fumo branco. É só mais um representante de uma Igreja caduca e obsoleta que teima em ser radicalista fechando-se à evolução do Mundo. Que permite que o clero fume ou use o twitter mas não permite aos fieis o uso do contraceptivo. 

Mas sou uma pessoa de fé e acredito  que um ser maravilhoso pisou a terra e morreu numa cruz por ser genialmente diferente. Alguém que trouxe consigo uma mensagem de missão para todos nós dando sentido à nossa existência. Acredito sim, que Mundo não acaba com a morte e que uns partem mais cedo porque os anjos fazem falta para olhar pelos que ainda cá andam. Sinto a mão de Deus todos os dias. É Ela que me ampara, é Ela que me guia na minha missão de amor ao próximo. Sou abençoada por Ele não por ter a melhor vida mas por me iluminar cada passo fazendo de mim a guerreira que sou na defesa dos mais infortunados. E sim, já ajudei muita gente e continuarei a fazê-lo mesmo que receba ingratidão e  esquecimento porque aos olhos Dele, nada é esquecido.  Não sigo rituais nem religiões. Porque tudo o que separa, não é a palavra de Deus. A minha religião é o meu coração e sigo-o colocando amor em tudo o que faço pelos meus irmãos da vida. Não preciso de rezas convencionais nem de templos para louvar, porque meu Deus é omnipresente e falo com Ele sempre que quero.

O novo Papa é simpático e demonstra alguma humildade, não o vou negar. Mas a Humanidade precisa de muito mais e como alto representante de uma Igreja, ou há mudanças sérias e verdadeiras com impacto real junto dos mais pobres ou então estaremos de novo a representar um papel sem valor. Porque além da palavra de Deus, é preciso fazer chegar comida a quem tem fome, roupa a quem tem frio, saúde a quem está doente. E os verdadeiros discípulos de Deus, espalhados pelo Mundo, que sem riquezas, curam com as mãos, alimentam com a caridade  do povo, ou das próprias fortunas, têm de ter seguidores no Vaticano. Falo de Madre Teresa, de tantos Homens de Deus espalhados pelas freguesias, da AMI, de particulares como Bono e tantos outros anónimos...   E o Papa, se realmente é um Homem de mudança, terá de deixar de assistir do seu trono, para por fortuna à disposição e tornar-se definitivamente o Estado mais pobre e altruísta do Planeta.

Quando isso acontecer, aí sim poderemos falar em mudança. Até lá, este ou outro Papa não passará de mais um na História da Igreja Católica.      

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A VERDADE DA MENTIRA

Muitas pessoas afirmam que se voltassem atrás no tempo fariam tudo igual. Eu não! Não acredito sequer que essa afirmação seja sincera. Todos nós temos episódios de que nos envergonhamos, que nos revoltam, que se pudéssemos arrancávamos de dentro de nós. Aquelas coisas a que eu chamo de nódoas e não memórias ou experiências. Eu tenho algumas. 

A pior nódoa da minha vida aconteceu há já alguns anos quando num ginásio, e por insistência da minha amiga, acabamos por trocar umas palavras. Não me vislumbrei. Nunca me vislumbro só porque alguém tem um palmo de tudo. Mas foi claro o interesse que vinha dele e acabei por aceder a um convite para assistir a uma das suas aulas. De conversas em conversas foi-se cimentando uma amizade que se transformaria mais tarde em algo mais. Dizia gostar de jogos de sedução e mal sabia eu que era um jogador tão bom que nunca parava de jogar... comigo e .... com o resto do mundo! Dominava o jogo das palavras também. Sedutor nato, era impossível não ver que todo o mulherio se rendia aos seus pés, dispostas a tudo. O meio profissional em que se movia propiciava tudo isso. E eu, não via mal nenhum em nada. Confiava na inocência angelical que lhe transbordava dos olhos cândidos de menino que não comete pecados. Era impossível ver fosse o que fosse tamanha era a minha cegueira. Os sinais no entanto andavam por ali: a forma como envolvia as outras na discoteca quando lhes dirigia a palavra era em tudo semelhante à minha... o facto de nunca ligar senão com número privado... aqui e acolá um aviso das "outras" vítimas que eu descurava porque ele dizia serem pessoas invejosas , que por despeito tentavam interferir na nossa relação. Dizia-se vítima da maldade humana e eu acreditava... Genial!

O tempo foi passando e por entre cenas de ciumes pelos homens que na sua frente mostravam o seu interesse em mim, e promessas de que "depois da tempestade viria a bonança" e "quem espera sempre alcança", fui-me deixando estar ligada àquele imbecil acreditando que estava a construir alguma coisa. E eu, consciente que um homem ainda casado tinha mesmo de preservar a sua donzela até ter o processo de divórcio concluído, achava lindo esta preocupação em não avançar com uma coisa sem terminar a outra. Eu mesma lhe tinha dito isso! Pois. E ele que provavelmente vinha lançado para outra coisa, jogou comigo de forma diferente de todas as outras porque eu impus essa regra logo no início!

Com ajuda preciosa da minha amiga, fiz cair aquela máscara. Completamente dominada pela raiva, procurei-o onde sabia que ele não me podia escapar e tirei-lha! Por trás estava um rosto monstruoso de alguém sem carácter, sem pudor, maquiavélico, manipulador, mentiroso e mau! Trémulo, mal conseguia pronunciar palavras atónito pela minha descoberta! Narcisista e adepto do culto do corpo, nunca pensou ver tanto despreza no olhar de uma mulher! Fatal para quem se ama tanto e tanto faz para que todas o amem! À pergunta "Porquê?" responde-me: não fui eu que te procurei, eu apenas estava...!  A gota de água para quem ainda acreditava poder haver pelo menos alguma humanidade naquele ser. Vou ter de viver para o resto da minha vida com esta nódoa sem a puder limpar. 

A verdade, é que há gente que monta cenários, encena o teatro e representa sem escrúpulos para arrancar puros sentimentos. Não sabem viver sem representar e andam uma vida a enganarem tudo o que mexe  à sua volta e a si próprios.

A mentira, é que acabamos por sentir algo nobre por seres que não existem senão no nosso imaginário criado através das palavras manipuladas,  de comportamentos estudados ao pormenor, para iludir todos que o rodeiam. São lagartos vestidos de gente que não passam de nódoas na humanidade.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

PRECONCEITO GERA CEGUEIRA



Apesar de todas as adversidades orgulho-me do meu percurso. Não sou o que sou por acaso. E para mim, pouco importa se estou numa secretária ou visto uma bata. O que importa é a dignidade com que luto e trabalho. Mas há seres vivos que não são assim e por estarem num determinado lugar num cargo que julgam importante, se comportam como imbecis. Descobri que quando não vestimos fato somos invisíveis para alguns. E é vê-los a pavonearem-se de um lado para o outro ignorando quem veste a bata, deitando de vez em quando apenas um olhar de desprezo por quem faz do seu dia, um dia mais limpo e saudável.

Estas criaturas não sabem mas este conceito de inferioridade é típico de mentes pequeninas e mal formadas. Ninguém é mais importante que ninguém e todos de forma equitativa precisamos uns dos outros: precisamos dos professores para ensinarem os nossos filhos, mas também das auxiliares que tomam conta deles na escola; precisamos dos médicos para nos curarem mas também das enfermeiras e auxiliares para nos cuidarem; precisamos dos engenheiros para desenhar as construções mas também dos trolhas para as executarem! E provavelmente, de toda a importância atribuída, sentiremos sempre mais falta do padeiro se deixar de cozer pão, do empregado camarário se deixar de levar o lixo do que um deputado que falta ao plenário no Parlamento. No entanto, há quem entenda que valemos pelo que auferimos... 

Quando sinto essa discriminação na pele, sorrio para a ignorância de quem se julga melhor cotado. Tenho pena, muita pena da pobreza de espírito dos que se emocionam com a Lista de Shindler mas que discriminam pelo status profissional. Que se elevam a um nível tão alto que não vêm o quão próximo pode estar a queda...

Eu já estive dos dois lados mas é neste que me sinto melhor pela nobreza que é cuidar dos outros. Gosto do terreno, do contacto com os mais fragilizados. E se a vida deu uma grande volta, ela não fez mais do que ajustar os ponteiros para o lado certo. 

Cuidar dos outros realiza-me não importa se pelo caminho me torno invisível aos olhos de muitos humanos...