quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

DIÁRIO DE UMA MEMÓRIA PERDIDA - E SE EU CORTAR A BARRIGA?




Uma chamada da minha mãe em pânico levou-nos a correr ver o que se passava. Quando lá chegamos meu pai, com ar angelical, não percebia a agitação à sua volta. Enquanto um tentava acalmar o choro compulsivo da minha mãe, tentava eu junto do meu pai entender o que tinha ocorrido. Perguntei: "Porque chora a mãe, pai..." E de olhos cândidos como um menino que tem medo de uma repreenda, responde: "Ela não me deixa fazer nada..." 

Percebi que havia mais, muito mais para dizer e era preciso acalmar a minha mãe para poder entender alguma coisa. Com canivetes e tesoura na mão, minha mãe soltou uma frase desesperada: " Ele quer cortar a barriga!!" Com toda a calma puxei-o para mim, abracei-o enquanto lhe dava um beijo no rosto e perguntei: " Ó pai, porque queres cortar a barriga?" E como um menino a quem se pediu explicação por ter roubado, começa:

- "Eu não consigo engolir. Quando engulo pára tudo aqui na garganta, sabes? Aqui. Se eu abrir a barriga com uma faca, posso ajudar a comida a chegar à barriga..." E continua:

- "Tás a ver estes pêlos na barriga? É por causa deles que a comida não desce..."

De imediato veio-me um pensamento:

- "Pai, queres que eu te corte os pelinhos da barriga para engolires melhor? Assim não precisamos de cortar a barriga e ficas com o problema resolvido..."

A cara do meu pai iluminou-se e responde: "Quero. E tu fazes-me isso?" Claro, respondi eu. Emocionado, deu-me um beijo e por entre promessas de que vinha já com a máquina para lhe tratar dos pêlos, ficou tranquilo até eu voltar.  

Com muito carinho fui dando conta da tarefa. Ficou feliz e completamente crente que tinha resolvido a angústia de não poder engolir...

Para ele fazia sentido abrir um buraco no estômago para engolir... Para nós renasceu o medo. À medida que a doença evolui sentimos que cada vez é mais difícil vigiá-lo, controlá-lo. A incerteza daquilo que lhe passa na cabeça, o inesperado... deixa-nos apreensivos. Será que um dia chegaremos a tempo?

Assim vai a vida de uma memória perdida. 


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

BOAS FESTAS

O telefone nunca tocou. Fosse de amigos, fosse de familiares. Na casa dos meus pais o silêncio daquele aparelho fez-se sentir por toda a quadra natalícia. Ninguém desejou boas festas ao meu pai. Houve quem se justificasse dizendo"gostava mais do Manel como ele era antes..." Está certo. A demência de facto é uma grande seca. As pessoas dizem coisas sem nexo, não se lembram de nada, das pessoas, não têm uma conversa fluente. 

Meu pai tem seis irmãos mas vive como se não tivesse nenhum. Longe vão os tempos em que, por ter muito para dar, não o largavam. Gostava de saber por onde andam aqueles que meu pai tirou da construção civil e das limpezas em França. Aqueles que tanto rogaram para que lhes dessem um emprego cá na empresa que ele  já possuia...  Onde estão esses irmãos a quem ele pôs bem na vida com o negócio da galinha dos ovos de ouro?

Não estão. Já lhe fizeram o luto. Se ele está demente porque razão vão estar eles a fazer companhia a alguém que não se lembra deles? Porém, como mandam os bons costumes, não faltarão na hora do seu último suspiro e tentarão atropelar-se para estar na primeira fila da igreja. Estarão vestidos a rigor, chorosos por terem perdido um irmão tão querido. A funerária da família não faltará com atenções, mimos e descontos num último adeus ao mais velho da família com uma cerimónia digna de um filme para homenagear aquele que desde pequenino protegeu e olhou pelos seis... 

Mas o meu pai mesmo não se lembrando sempre que eu sou filha dele, não esquece a ternura de um abraço, o calor de um beijo e sempre que lhe dou um carinho é vê-lo sorrir de satisfação! A quem o ama, isto  basta para sermos felizes ao lado dele mesmo que ele não se disponha para festas, para conversas... mesmo que só queira estar no seu cantinho sossegado a dormir. A quem o ama, vê-lo no seu mundo mesmo que dizendo disparates, mesmo que trocando nomes ou coisas, é tudo o que importa.

Quem o ama vai só para lhe dar um abraço... e quem o ama somos apenas e tão somente... nós.



 
  













terça-feira, 15 de janeiro de 2013

DICAS ANTICRISE - EMPREGO

É sabido que a conjuntura do país anda má. Contra factos restam as evidências aos olhos de todos. Mas baixar os braços e desanimar é a última coisa que se deve fazer. Deixar levar-se pela corrente das más notícias que nos entram pelos ouvidos, olhos, a toda a hora, seja pela televisão seja pela rádio ou jornal! A primeira dica que aqui deixo é: "desligue-se" das notícias! Faça "blackout" e veja só o essencial para se manter informado sobre o país e o Mundo. Seja você mesmo a filtrar o que vê. Nenhum estado de alma resiste a momentos tão deprimentes como são os noticiários portugueses!

Depois, meta as mãos na massa e mexa-se! O problema de muitas pessoas é precisamente a falta de dinâmica. Desanimados, desesperados deixam-se levar pelas angústias e ficam imobilizados, quase estáticos perante a falta de emprego. Saia de casa todos os dias. Faça da procura de emprego um emprego. Ao mesmo tempo que caminha na procura, respira ar puro todos os dias, faz exercício, apanha sol e mais do que tudo está a zelar pela sua saúde física e mental. Inscreva-se em todos os centros de recrutamento, veja os classificados dos jornais todos os dias e bata às portas todas que encontrar. E mais do que tudo, por muitos "nãos" que receba, não desanime.

Não seja esquisito: o problema de muitos é mesmo esse... querem muito um emprego mas filtram demais. Agarre-se ao que houver mesmo que não seja aquilo com que sempre sonhou. Pior do que não estar no emprego ideal é não ter emprego nenhum. Não produzir. E lembre-se que enquanto está activo pode e deve continuar na procura. E terá sem dúvida muitas mais probabilidades de encontrar algo novo estando empregado do que inactivo em casa. As oportunidades chegam de onde menos se espera e pode muito bem surgirem precisamente naquele emprego que achava não ser o ideal. Porque é movimentando-se nos meios de trabalho que está mais perto de encontrar oportunidades.

Seja positivo: nunca se esqueça que pessimismo atrai ondas negativas. Prende a mente, imobiliza o corpo e as coisas não acontecem. Só pioram. Junte-se a pessoas positivas. Elas não só dão força como tornam o nosso dia dia melhor.

Saia da sua área de conforto: OK. Está difícil arranjar emprego perto de casa? Tente um pouco mais longe mesmo que para isso só venha a casa aos fins semana. Os preços de quartos já não eram o que eram e hoje consegue-se preços de pechinchas. Basta procurar bem. O importante é não ficar parado. Sabemos que é mais confortável estar a 10 min. do emprego... mas isso está em vias de extinção... por enquanto. 

Seis meses sem conseguir nada? Empreenda: Não fique eternamente á espera. Se a demora já vai longa mesmo depois de todos os esforços, empreenda. Crie o seu próprio emprego. Utilize os conhecimentos que aprendeu para empreender algo que lhe posso trazer um rendimento simpático ao fim do mês. Preferia estar num emprego por conta de outros? Compreendo. Mas a vida nem sempre nos mostra os caminhos que queremos mas sim os que podemos ter.  Se tem medo de empreender porque receia os riscos, saiba que existe imensos serviços low-cost, muitos concretizáveis a partir de casa com custos zero, riscos zero que o podem tirar do buraco financeiro num ápice. Atreva-se!

Alargue horizontes: procure outros mercados de trabalho. Se está ainda em idade activa, a qualquer momento pode dar um rumo novo à sua vida. Os mercados estrangeiros de trabalho são um nicho de oportunidades  muito ricas e compensadoras. Basta sabermos por exemplo que na Suiça o salário mínimo é de 3500€. Se 1200€ são em média o necessário para uma renda de 1 casa com 2 quartos, ficam 2 terços do ordenado para viver. É uma questão de opção. Ou batalhar duro no nosso país ou partir para outros horizontes e em 15 anos conseguir poupar o suficiente para 1 vida tranquila de regresso a Portugal. Sem falar daqueles que por possuirem cursos superiores podem auferir o triplo ou mais do salário mínimo... 

Seja lá como for, o importante é não parar e sobretudo nunca deixar de acreditar. Porque àqueles que nunca lhes falta a vontade, tudo acontece. 


  

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

ESTUDAR OU NÃO ESTUDAR EIS A QUESTÃO


Dizer-se que se andou a estudar 25 anos para nada é dos maiores absurdos que ando a ouvir. Como é possível pessoas com formação superior dizer tal disparate? Tudo se explica pela mentalidade que ainda alguns têm de que quem estuda tem de ser doutor ou gestor... E é precisamente por essa razão que muitos não conseguem evoluir, para não dizer, sair do ponto de partida. 

Estudar é e será sempre importante na formação do indivíduo e nunca pode ser considerado um desperdício, independentemente do curso das nossas vidas. Os estudos são ferramentas poderosas, é o material de pesca essencial para se obter uma boa pescaria. Não importa se o vamos usar muito ou pouco. Está lá e se fizer falta é só tirar do armário. Mas sem darmos por isso, assim que investimos na nossa formação, estamos logo a utilizar uma percentagem do que aprendemos. Compete-nos a nós rentabilizar ao máximo essa mais valia. E não me venham dizer que ir á pesca com pedras ou uma cana sofisticada é a mesma coisa! O que se vê é que são precisamente os que nada têm senão pedras que incrivelmente empreendem e se destacam na criação de riqueza. 

Estudar dá-nos aptidões únicas para enfrentar a vida. A bagagem que levamos para esta viagem curta na Terra  ajuda-nos a sobreviver ás tormentas e desafios e sem ela mais difícil são as opções, os caminhos a seguir. Estudamos para ter mais oportunidades, mais estofo, mais conhecimentos e com isso poder alcançar com muito trabalho os objectivos de vida.

Preocupa-me os pais de hoje porem em causa o que aprenderam. Os filhos de hoje serão pais amanhã e é importante que saibam que o maior legado deixado em herança, é todo o dinheiro investido pelos pais na sua educação. 

Vale a pena pensar nisto.