terça-feira, 7 de abril de 2015

FALAR BEM, FALAR MAL




 É normalmente de quem menos se espera que se tem as piores desilusões. Tem sido assim ao longo de quase meio século da minha vida. Já entendi que a minha franqueza não agrada a muita gente. E que as abordagens que faço sobre o que me rodeia perturba outras tantas. Mas daí a dizer que ando a falar mal de toda a gente, alto lá!! Não são quaisquer pobres comentários despidos de conteúdo que me afectam. Mas aqueles que deturpam e distorcem o sentido das coisas, tiram-me do sério. Sobretudo se forem proferidas por pessoas que julgo terem um mínimo de formação e cultura geral... Pois é, o problema é que são precisamente "esses" que se saem com estas preciosidades conotativas. 

Fiquei a saber então, numa conversa acesa com os meus dois interlocutores, que falo mal dos seus entes queridos e por isso, estavam, a modo que, muito chateados. Novidade para mim, o espanto foi tanto que tive de voltar atrás ás minhas "escritas" no meu blogue certificar-me do que tão terrível teria eu dito sobre essas  pobres almas!  Sendo ele autobiográfico, eis que "tcharan"! encontro o mal perturbador: a minha realidade vivida com essas pessoas; o meu testemunho daquilo que vi, vivi, e senti com essas criaturas. A verdade nua e crua de como a minha vida foi com eles. E oh! que pena, que por acaso são meus tios e avô.

Seria politicamente mais correcto, de facto, fazer como quase toda a população do planeta e , só para manter amizades, falar maravilhosamente das criaturas que privaram connosco (mesmo sendo falso) pela frente, e em público, e no recanto escondido das salas, baixinho, dizer a verdade e espalhá-la de ouvido em ouvido. Isto sim é que é de louvar! Isto sim é que é carácter! Agora, ter coragem de chamar as coisas pelo seu nome e ainda por cima em voz alta?! Meu Deus! Que monstro que sou! 

Ah! como eu gostaria de, ao contar minha vida, dizer que esses tios e avô foram espectaculares para mim. Como eu gostaria de dizer que, não me difamaram, não me estigmatizaram, não me levantaram falsos testemunhos, não me prejudicaram... que não são falsos nem mentirosos. Que não criaram de mim um monstro que não sou, a ponto de pedirem aos filhos para terem "cuidado"  comigo... não vá eu "abocanha-los" qual lobo mau à solta! Como eu gostaria, ah! se gostaria!, de dizer que são irmãos extremosos e desinteressados, que ao apelo feito por mim em 2013, acorreram todos cobrir o saudoso irmão de mimos e afectos; poder dizer que não morreu na agonia; poder dizer, como posso fazê-lo a apenas um, que lhe encheram a casa de visitas assim que souberam da sua doença. E meu avô? Como posso eu escrever sobre essa personagem sem abordar os maus tratos psicológicos à minha avó, as palavras crueis ao meu pai?

 A vida não se conta como  gostamos de  a ouvir, mas como ela acontece. Dentro do respeito, sempre, mas fiel à verdade. E se a verdade perturba, é porque quem a ouve vive uma mentira muito grande e prefere refugiar-se nesse pseudo-paraíso à parte e dizer-se feliz com ele, do que aceitar as agruras da vida como espinhos necessários à compreensão da mesma. Cada um escolhe como quer caminhar nela. Se com vendas, ou completamente atento a tudo o que o rodeia. Não precisamos de deixar de gostar de alguém só porque outros tiveram más experiências com eles. Mas respeitar quem sofreu, e respeitar o direito a exprimi-lo,  é fundamental. 

Os pedófilos, os assassinos, os ladrões, corruptos e tantos outros, são além disso, filhos de alguém, pais de alguém, tios de alguém, netos de alguém e não é por o serem que, se tivermos de falar ou escrever sobre isso, não o façamos relatando os factos como eles decorreram. Se assim não fosse, não poderíamos escrever a História da Humanidade a não ser para relatar os ricos feitos e os nascimentos. Tudo o que fosse perturbador, mesmo sendo verdade, teria de ser banido.

A mim não me chateia perder supostas amizades por contar a minha vida com a verdade. O que me chateia é pensar que estou rodeada de "Je suis Charlies" assumidos e depois, por ter opinião divergente, treparem paredes, berrarem,  rotulando-nos de perturbadores só porque não escondemos o que sentimos.  Sem saberem, em apenas alguns minutos, transformaram-se assim em fundamentalistas radicais das suas crenças. Felizmente sem granadas...

Falar mal é criar cenários e enredos que não existem. É criar diálogos, pensamentos e atitudes fictícias sem o conhecimento do próprio. É criar opinião sobre alguém sem nunca o consultar. Sem sequer o conhecer... Quando se relata apenas o que se vivência, não estamos a falar mal de ninguém. Estamos a contar apenas uma história... a nossa História.     

UM ANJO NO CÉU

Passou a fazer parte da minha família no dia em que casei com o sobrinho. Quando o vi pela primeira vez senti uma emoção forte com aquela personalidade radiante e divertida. Era alguém de quem era impossível não nos apaixonarmos intensamente. Tinha o dom da palavra e encantava-me ouvi-lo. As reuniões familiares eram esperadas com expectativa quando sabia que ele lá ia estar. Homem de Deus, dedicou sua vida aos outros como ninguém. Mas com o meu divórcio, a vida separou-nos e deixei de o ver... Levei-o comigo no coração, a ele e à família que eu amava como se fosse minha.

Passaram-se anos, até que um dia, ao levar minha filha ao casamento de outro sobrinho, o reencontro. Lembro-me desse dia como se fosse hoje: assim que ele me avistou ao longe, num passo apressado, saiu da mesa e veio na minha direcção, e antes mesmo de proferir uma palavra, envolve-me num abraço profundo, forte e demorado que me emocionou. Ali senti que apesar do tempo e da distância, ele não me tinha esquecido e demonstrava assim o afecto que sentia por mim. Insistiu tanto para que eu ficasse e eu que naquela época não queria conflitos com o ex, declinei. Não conformado, tentou demover-me dessa decisão... mas acabei mesmo por não ficar. Arrependo-me amargamente dessa decisão até hoje.  Porque hoje, ele já não está cá entre nós.

O Artur era uma alma de brilho intenso, alegre, um ser humano grandioso, uma perda gigantesca para o Mundo.  Soubera eu que partiria assim, e nunca teria declinado aquele convite. Sinto a perda dentro de mim ainda hoje. Como ainda hoje, sempre que me sinto perdida, apelo à sua ajuda divina. Deixei de o ver mas não deixei de o sentir. 

Por cá fica aquele abraço forte e apertado dum amigo que não sabia que tinha. Partiu cedo demais. Cedo demais para lhe dizer o quanto sentia a sua falta.

 Perdi um amigo mas ganhei um anjo.