sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A VIDA NÃO É UMA MARATONA




Andamos feitos loucos a correr como baratas tontas, stressadas com o que temos para fazer, o que ainda não fizemos. Corremos como se estivéssemos numa competição,  todos ansiosos por atingir rapidamente metas, para rapidamente chegarmos cada vez mais longe nos nossos objectivos mundanos.

A vida não é uma corrida. Uma prova de maratona em que o primeiro lugar garante a vitória. Se passar seu tempo a correr obcecado  com tudo o que tem para fazer, o mais certo é chegar à meta cedo demais. Porque aqui, quem chega primeiro, dana-se!

Na empresa do meu pai tínhamos um empregado guineense. O Jorge (era assim que se chamava), tinha um jeito muito peculiar de ver a vida. Quando um dia cheguei ao pé dele pedindo para se despachar mais rápido a fazer as paletes, respondeu-me: "Mas patroa! Pra quê andar mais depressa! A seguir a este trabalho vem outro. O trabalho nunca acaba! Nós é que acabamos!" Foi impossível deixar de sorrir. O Jorge tinha razão e aquelas palavras nunca mais as esqueci. Esta filosofia de vida permaneceu até hoje dentro de mim.

É importante cumprir com nossos deveres. É fundamental procurar atingir nossos objetivos. Mas é primordial que essa busca seja feita de forma tranquila e regrada. Sem obsessões. Sem exageros. Porque a vida é um sopro. Pode esvanecer a qualquer minuto. E se não aproveitarmos cada segundo como se fosse o último, perderemos o que mais precioso temos nela: o viver.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

QUEM AMA FICA



Acho graça às modas sobre uma suposta beleza feminina que faz uso de tudo o que é articial, para supostamente as tornar mais desejadas: cílios postiços; extensões de cabelos postiços; rabos postiços; mamas postiças; lábios adulterados; maquiagens transformadoras... A ponto de, se por ventura virmos a criatura em causa sem artifícios falsos, nem sequer a conseguir-mos identificar! E logo me pergunto, se mesmo elas, não se assustam pela manhã depois do banho... 

Na juventude, naquela idade difícil da adolescência, fui alvo de imensos comentários, nem sempre agradáveis. Quando me viam, fosse mulher ou homem, ao invés de me cumprimentarem com um "olá estás boa?", olhavam para mim e diziam: Ai miúda, estás tão magrinha!!!" E diziam-no num tom tão "preocupado" que me abalava achando-me horrivelmente esquelética! Outros, por pura maldade, diziam que "puxava ao pai". E ainda, um namorado " estás a engordar para a espinha" e colegas "esta para se abrigar da chuva basta-lhe um fio da luz"! Contudo, nunca me deixei contaminar por imposições físicas. Talvez já seja intrínseco, mas logo cedo criei anticorpos que ainda hoje utilizo e que me tornaram imune a qualquer observação feita a minha embalagem! 

Por isso, hoje, por não me enquadrar nos padrões de beleza considerados ideais, teria todos os motivos e mais alguns para querer transformar-me de cima a baixo. Mas no entanto, quando me confrontam, minha opinião é peremptória: mulher que se ama, não se transforma naquilo que não é. E amar significa aceitar-se. Significa valorizar-se por um todo e não por apenas parte. Porque não somos só capa de um livro. Somos história também. E não vale a pena usar de todos os artifícios para mudar a aparência, sem cultivar o conteúdo. Porque, por muito que se esforce em pensar o contrário, o que é por fora, prenderá por minutos. O que transparece por dentro, aprisionara por uma vida. 

Quando mudar alguma coisa, tenha a certeza que o faz apenas por si e apenas pelo seu bem estar. Porque se o fizer pensando agradar a outros, por insegurança e medo de perder seu companheiro, estará a perder dinheiro e tempo. Porque nosso é aquele, até quando o coração o permitir. Até quando a vontade existir. E de nada lhe servirá todas essas mudanças, se o sentimento se perder. E verá que quando ele partir nem sequer será por uma mais bela... 

Porque na verdade, quem ama fica... Seja com celulite, seja com rugas, seja com flacidez, seja como for... Quem ama fica sempre, porque o amor vem de dentro e não de fora.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O QUE DIZEM AS MINHAS RUGAS



Apesar de não me afligir com o avanço da idade, não nego que estou atenta aos pequenos declínios que se vão notando aqui e ali. A flacidez mais acentuada, o efeito da gravidade nos seios e nádegas, os cabelitos brancos que resolvem aparecer aos molhos e sempre mais, onde são visíveis. Sim, eu também não gosto nada de envelhecer. E confesso que desde que fiquei a um passo dos cinquenta, tenho olhado mais para mim do que o habitual...

Contudo, envelhecer não me assusta. A sabedoria adquirida nesta já longa vida, não me deixa entristecer. Aprendi que é um privilégio negado a muitos, ainda cá estar. Que apesar de não ter tido um percurso tranquilo, a verdade é que devo o que sou à turbulenta vida que me foi destinada. E se por um lado, ela me foi madrasta, por outro, tenho muitos motivos para sorrir. Porque na verdade fui tantas vezes desafiada, mas nunca derrubada. E tornei-me gigante Adamastor.

Por isso, imaginei sempre que ao envelhecer as primeiras rugas seriam na testa, onde as adversidades se manifestam. Mas não. Curiosamente, eu que tanta lágrima verti, que tanta dor transpirei, que tanta raiva gritei, as minhas primeiras rugas são de risos, são de sorrisos, engenhosamente colocadas no contorno dos olhos, nos cantos da boca lembrando-me que também fui muito feliz...

As minhas rugas dizem que abracei meus dias sorrindo. Que afastei meus males cantando. Que fui feliz não pela vida perfeita que jamais tive, mas pelo amor que nunca faltou.  Dizem que sorri mais do que chorei. Que distribuí sorrisos por onde andei. E que a felicidade que encontrei, foi de ver sorrir quem por mim passou.